Ralph Alpher - O Cientista Esquecido

de fantastico.globo.com

Imagine que você é cientista e descobre a resposta para uma das perguntas mais antigas da humanidade: como foi que tudo começou? E, quando chega a hora do reconhecimento, como você se sentiria se toda a glória e todos os prêmios fossem para outra pessoa? Essa história é verdadeira.

Em ciência, muitas vezes, grandes descobertas nascem por acaso. E nem sempre a comunidade científica reconhece o mérito daqueles que tiveram uma grande idéia primeiro. Para uns, a glória; para outros, o esquecimento.

O ano era 1929. No observatório de Mount Wilson, ao norte de Los Angeles, havia sido construído o telescópio mais potente de todos os tempos.

O astrônomo americano Edwin Hubble apontou o telescópio para o céu e viu gigantescos conjuntos de estrelas – as galáxias – se afastando umas das outras. Era o universo em expansão, crescendo cada vez mais.

As conseqüências dessa descoberta foram profundas. Se as galáxias estão se afastando, isso significa que, no passado, elas já estiveram mais próximas. E mais: em um passado muito distante, as galáxias – e as estrelas que elas contêm – estavam tão próximas que ocupavam todas o mesmo espaço. Trata-se de uma região minúscula, menor do que a cabeça de um alfinete. O universo, então, tinha uma origem. Mas que origem era essa?

Ironicamente, a primeira pessoa a buscar essa resposta, a sugerir um modelo científico para a origem do universo foi um padre, o belga Georges Lemaître. Segundo ele, no início, o universo não passava de um enorme núcleo, ou “átomo primordial”, como ele chamou. Mas o próprio Lemaître admitia que sua teoria não explicava tudo em detalhes, o que é essencial em ciência.

Só em 1948, inspirado pelas idéias de Lemaître, um dissidente soviético naturalizado americano pôs as mãos à obra. Ele se chamava George Gamow. Era um homem que não tinha medo de grandes desafios. Nascido na Ucrânia, Gamow chegou a tentar fugir duas vezes da antiga União Soviética, atravessando o mar negro em um barquinho a remo.

Para ajudá-lo na gigantesca tarefa de finalmente explicar a origem do universo, Gamow convocou dois alunos de doutorado, Robert Hermann e Ralph Alpher. Dos três, apenas Alpher está vivo. Encontramos com ele em um asilo para aposentados em Tampa, no estado americano da Flórida.

Alpher sofreu um derrame anos atrás e se movimenta com dificuldade, mas continua lúcido. Ele conta como era trabalhar com Gamow. “Ele era uma grande figura”, diz Alpher. “Fechando os olhos, consigo imaginá-lo na sua motocicleta, um belo cachecol de lã no pescoço, voando ao vento”, conta o cientista.

Gamow sabia das descobertas de Edwin Hubble, de que o universo está em expansão. Sabia também que o universo é extremamente frio. Gamow tinha um palpite: se voltasse no tempo, poderia contar a história do início de tudo.

E isso foi o que ele propôs: se o universo – que está em expansão – hoje, é frio e gigantesco, no seu início devia ser exatamente o contrário: muito quente e muito denso. Por isso, ele apostou que o universo começou comprimido, ao máximo, em uma única região.

Gamow continuou o raciocínio: a tendência natural de tudo o que é quente e comprimido é de se resfriar e se expandir. E isso foi o que aconteceu: o universo se expandiu violentamente, em uma grande explosão. O “Big Bang”, como a explosão foi chamada mais tarde.

O início desse processo não teria durado mais do que cinco minutos. Foi aí toda a matéria do universo se formou. Com o passar do tempo, a matéria foi se resfriando e se agrupando, dando origem às galáxias, às estrelas e aos planetas até chegar ao que é hoje.

Mas como ter certeza? Como já vimos, em ciência, não basta propor. É preciso provar. Foi aí que entrou em cena Ralph Alpher – dos três, o que tinha maior domínio de matemática. Foi ele o cérebro responsável pelos cálculos que deram sustentação matemática à teoria do Big Bang.

Alpher e seus colaboradores chegaram a fazer uma previsão matemática que não puderam comprovar experimentalmente: nos dias de hoje, seria possível encontrar um vestígio do Big Bang. Seria uma radiação gelada, com temperatura de apenas três graus acima do zero absoluto.

Era 1964. Em Nova Jérsei, Arno Penzias e Robert Wilson, dois físicos dos laboratórios Bell, estavam empenhados em resolver um estranho problema de telecomunicações: um ruído nas antenas usadas em ligações interurbanas. Um chiado sem explicação, que não vinha de nenhum lugar na Terra.

Dispostos a solucionar o mistério, Penzias e Wilson trabalharam durante dois anos, mas não havia jeito de descobrir a causa do maldito chiado. Em desespero, os dois chegaram a limpar o cocô dos pombos que viviam na antena, na esperança de que essa fosse a causa da interferência. Nada.

O ruído vinha mesmo de um lugar muito distante, de fora da nossa galáxia, a Via Láctea. Até que, um dia, Penzias ouviu falar de algo muito interessante: um grupo de pesquisadores da Universidade de Princeton estava construindo um radiotelescópio para procurar por sinais do Big Bang. Eram exatamente aqueles vestígios que Ralph Alpher havia previsto em seu trabalho, 16 anos antes.

Arno Penzias e Robert Wilson então descobriram o que era o tal do chiado que provocava interferência nos telefonemas interurbanos: era, nada mais, nada menos, do que o som do Big Bang, a grande explosão que deu origem ao universo. Acidentalmente, eles haviam encontrado a prova que faltava, a última peça do quebra-cabeças: a “radiação cósmica de fundo”, como foi chamada.

Em 1965, eles publicaram o resultado do trabalho, mas não tiveram o cuidado de citar os nomes de Ralph Alpher, George Gamow ou Robert Hermann, justamente os criadores da teoria do Big Bang, que haviam previsto a radiação cósmica de fundo 16 anos antes.

Alpher nos conta que soube pelo telefone da notícia, mas não conseguia acreditar no que ouvia: eles simplesmente não haviam dado crédito ao seu trabalho. “Foi duro saber que o nosso trabalho estava sendo confundido com cocô de pombo”, diz Alpher.

Mas o pior veio 13 anos mais tarde, em 1978. Foi quando o Instituto Karolinska, da Suécia, decidiu: pela sua inestimável contribuição, Arno Penzias e Robert Wilson tornaram-se imortais da ciência. Eles receberam o Prêmio Nobel de Física.

Penzias ainda teve a idéia infeliz de procurar Ralph Alpher antes da premiação e pedir a ele que ajudasse a escrever o discurso de agradecimento. Alpher afirma: “Claro que fiquei magoado.”

Moral da história: em ciência, às vezes não basta ter a idéia genial, ou escrever o trabalho genial. É preciso ter a comprovação experimental dessa idéia, e saber divulgá-la entre os colegas, claro.

Para terminar: você quer ter uma idéia de como são o som e a imagem do Big Bang? Dá para ver em casa, desde que você tenha uma televisão antiga, dessas em que a gente muda o canal com um seletor redondo. Sintonize entre dois canais. Pronto: 1% da interferência que você vê na tela é radiação remanescente do Big Bang, o som e a imagem da criação.

Ralph Alpher faleceu em 12 de agosto de 2007.

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