"Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo é uma alegria para mim compartilhar uma época e um planeta com você." - Carl Sagan
EU MAIOR - entrevista com Marcelo Gleiser
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Observatório Nacional: Einstein errou?

Defendendo a Ciência
Inevitabilidade Humana
consequência inevitável
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Evitando o vazio
Olhando para o início do tempo
no presente. Objetos podem não
existir mais ou terem mudado por completo
Einstein, Bohr e a realidade
Uma ecologia espiritual
O Erro de Kepler
"teorias de tudo" com enorme ceticismo;
nosso conhecimento é limitado
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Marcelo Gleiser - Sobre o natural e o sobrenatural
Marcelo Gleiser - A Importância de não Saber
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Marcelo Gleiser - Criação Imperfeita - Entrevista Espaço Aberto
Cientista brasileiro defende que o Universo não é simétrico e que a teoria unificadora do Cosmos jamais será descoberta.
A Nebulosa Borboleta, como ficou conhecida, intriga justamente por adquirir um formado conhecido na vida do planeta Terra. Uma resposta possível a esta improvável padronização pode ser encontrada na teoria da geometria fractal, desenvolvida pelo matemático polonês Benoit Mandelbrot. Para o teórico, o Universo dispõe de um número finito de formas a ser usadas na criação – ao contrário do que se poderia supor devido à variedade de elementos presentes no Cosmos.
No recém-lançado Criação Imperfeita (Record, 350 páginas, R$ 49,90), Gleiser defende que a busca pela Teoria Unificadora, uma fórmula que explique desde o funcionamento do núcleo do átomo até a expansão do Universo, é contraproducente e condenada à frustração. Gleiser, um ex-unificador confessso, afirma que a expansão e a permanência do Universo só é possível devido às assimetrias e desequilíbrios dos sistemas cosmológicos.
Ao lado, trechos da entrevista que Gleiser concedeu à Gazeta do Povo, por telefone, a partir dos Estados Unidos.
Perfeição do Universo
Primeiro, eu digo que este nosso Universo de perfeito não tem nada. Basta ver todas as assimetrias e imperfeições que existem não só na vida, mas também nas mutações, na assimetria das moléculas, nas partículas de massa, no fato de existir mais matéria que antimatéria.
Então uma das coisas que eu falo no livro é que o autor do Universo é o desequilíbrio. É justamente essa falta de perfeição – essa falta de simetria – que gera a transformação, e a história do Universo é uma história de transformações sucessivas. Não é necessário que a gente tenha um outro Universo para comparar com o nosso, porque nós podemos, dentro desse nosso Universo, desenvolver essa dicotomia de perfeição e imperfeição.
Nós sabemos o que é perfeito e o que é imperfeito. E com isso podemos usar o que eu chamo de uma nova estética para a natureza. A natureza não é bela porque é perfeita, ela é bela porque ela é imperfeita.
Unificação
A maioria dos cientistas não dá a menor bola para teorias unificadas. Eles vão para os laboratórios, trabalham em seus sistemas e materiais, nas suas observações astronômicas, e não estão preocupados em procurar uma grande síntese de todo o conhecimento físico.
Eu jamais iria contra a busca de simetria na natureza, porque afinal de contas a simetria é uma ferramenta absolutamente fundamental na nossa busca por significado no mundo natural. Nós precisamos usar o conceito de simetria como uma ferramenta para encontrar relações entre como os sistemas naturais interagem e se manifestam.
Então existem várias questões que a gente pode abordar, e obter para elas unificações parciais. Mas essa noção de que existe uma unificação perfeita e absoluta por trás de tudo que existe pra mim não tem o menor respaldo no mundo natural.
Metafísica
Se argumenta que, se o Big Bang é um evento único, tudo o que foi criado por ele tem uma mesma causa. Mas se dermos esse pulo, construímos uma projeção quase que inconsciente da visão de Deus. Isso equivale a dizer que tudo começa em Deus, que Deus é perfeito, que Deus é único, portanto tudo vem dessa fonte única.
Entretanto a ciência funciona de maneira diferente. A física é uma uma narrativa que a gente constrói para poder entender como é o funcionamento do mundo. E essa narrativa tem limitações. Ela não consegue explicar tudo, inclusive é incapaz, ao menos por enquanto, de entender a própria origem do Universo, e nem sei se isso é conceitualmente possível.
Para entender algumas questões profundas, a gente teria que compreender um outro tipo de ciência, que é a ciência das leis da natureza. Por que o nosso Universo não é de alguma outra forma? Esse tipo de ciência não é nem ciência, é metafísica.
Tem muita gente pensando nessas coisas: multiverso, panorama das supercordas... Mas não existe nenhuma razão empírica para a gente acreditar que o mundo físico seja assim.
Papel da ciência
Eu acho que existem vários tipos de ciência. Temos uma pesquisa de base, que é a que eu faço. Ela é bastante “não prática”, bem teórica, bem abstrata. E temos um tipo de ciência mais aplicada. Esse tipo de ciência certamente depende muito do momento histórico em que está inserido.
No meu livro, eu estou tentando ser um pouquinho mais ambicioso e criar uma reorientação das forma como se entende a ciência. Fazer um chamado para olhar o mundo de uma maneira diferente do que a gente tem olhado.
A Terra, dentro desse contexto cósmico que eu discuto, é um planeta extremamente raro. Toda a trajetória da vida na Terra que eu conto no livro é justamente para mostrar o quanto a vida não é óbvia, o quanto a vida é rara, e principalmente o quanto a vida é complexa.
Limites do conhecimento
A gente nunca vai saber tudo o que existe para se saber, porque os nossos instrumentos nunca vão ter o alcance total para revelar o que existe na natureza. Existe aquilo que a gente conhece, que vai crescendo à medida em que os instrumentos vão ficando cada vez mais poderosos, mais precisos, mas sempre vai existir aquilo que a gente não conhece. O espaço que a gente desconhece deve ser preenchido com mais ciência, mas sempre vai haver os espaços vazios no conhecimento humano.
Fonte: Gazeta do Povo
Newton, Einstein e Deus
É bem verdade que o que ambos chamavam de "Deus" não era compatível com a versão mais popular do Deus judaico-cristão.
Numa época em que existe tanta disputa sobre a compatibilidade da ciência com a religião, talvez seja uma boa ideia revisitar o pensamento desses dois grandes sábios.
No epílogo da edição de 1713 de sua obra prima "Princípios Matemáticos da Filosofia Natural" (1686), Newton escreve que o seu Deus (cristão, claro) era o senhor do Cosmo e que deveria ser adorado por estar em toda a parte, por ser o "Governante Universal". Essa visão de Deus pode ser considerada panteísta, se entendermos por panteísmo a doutrina que identifica Deus com o Universo ou que identifica o Universo como sendo uma manifestação de Deus.
A visão que Einstein tinha de Deus, devidamente destituída da conotação cristã, ecoava de certa forma a de Newton. Einstein desprezava tudo o que dizia respeito à religião organizada, em particular a sua rígida hierarquia e ortodoxia.
Para ele, um Deus que se preocupava com o destino individual dos homens não fazia sentido. Sua visão era bem mais abstrata, baseada nos ensinamentos do filósofo Baruch Spinoza, que viveu no século 17.
Numa carta dirigida a Eduard Büsching, de 25 de outubro de 1929, Einstein diz: "Nós, que seguimos Spinoza, vemos a manifestação de Deus na maravilhosa ordem de tudo o que existe e na sua alma, que se revela nos homens e animais".
Em 1947, numa outra carta, Einstein escreveu: "Minha visão se aproxima da de Spinoza: admiração pela beleza do mundo e pela simplicidade lógica de sua ordem e harmonia, que podemos compreender".
Como essas posições podem ser usadas no debate sobre a compatibilidade da ciência com a religião?
De um lado, ateus radicais como Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harris argumentam que não pode haver uma compatibilidade, que a religião é uma ilusão que precisa ser erradicada, que o sobrenatural é uma falácia.
De outro, existem vários cientistas que são pessoas religiosas e até mesmo ortodoxas, e que não veem qualquer problema em compatibilizar seu trabalho com a sua fé. O fato de existirem posições tão antagônicas reflete, antes de mais nada, a riqueza do pensamento humano. Nisso, vejo um ponto de partida para uma possível conciliação.
É verdade que o ateísmo radical está respondendo a grupos fundamentalistas que tentam evangelizar instituições públicas. "Guerra é guerra e devemos usar as mesmas armas", ouvi de amigos. Mas o pior que um fundamentalista pode fazer é transformar você nele.
Einstein e Newton encontraram Deus na Natureza e viam a ciência como uma ponte entre a mente humana e a mente divina.
Para eles, adorar a Natureza, estudá-la cientificamente, era uma atitude religiosa. Acho difícil ir contra essa posição, seja você ateu ou religioso. Religiões nascem, morrem e se transformam com o passar do tempo. Mas, enquanto existirmos como espécie, nossa íntima relação com o Cosmo permanecerá.
Fonte: Micro/Macro - Marcelo Gleiser
Marcelo Gleiser - Matéria, Antimatéria e Existência
A ciência abre janelas para a realidade, mas nenhuma permite ver o que estaria além dessa realidade.
Na semana passada, manchetes traziam novas do Fermilab, o enorme acelerador de partículas situado nas vizinhanças de Chicago, nos EUA: "Nova pista para explicar nossa existência", escreveu Dennis Overbye, do "New York Times".
Interessante, esse título. Vários leitores escreveram reclamando da aparente necessidade de misturar ciência e religião até mesmo quando se trata de um experimento da física de partículas. Overbye cita Joe Lykken, um excelente físico teórico do Fermilab: "O anúncio não é equivalente a ver a face de Deus, mas os dedos do pé de Deus".
Lykken estava zombando de George Smoot, o prêmio Nobel que, ao revelar os resultados das investigações de sua equipe sobre as propriedades da radiação cósmica de fundo, produzida quando surgiram os primeiros átomos, afirmou que era como "ver a face de Deus".
Será que a existência de matéria e de antimatéria tem algo a ver com Deus? E, se não tiver, por que essa mania de invocar Deus quando se fala de cosmologia?
Smoot não é o único. O também vencedor do Nobel Leon Lederman escreveu um livro com Dick Teresi chamado "A Partícula de Deus".
Stephen Hawking, no seu "Uma História do Tempo", afirma que encontrar uma teoria final é como "conhecer a mente de Deus". Essas afirmações nos dizem não só algo sobre a expectativa do público, mas também sobre o papel cultural que físicos, especialmente aqueles trabalhando em questões ligadas a "origens", exercem. Sou tão culpado quanto eles, já que minha pesquisa trata de origens. Será que a física é a nova teologia?
De jeito algum. Confundir a prática da ciência com a religião é um erro grave. Por outro lado, a física moderna trata de assuntos que, por milênios, eram província exclusiva da religião. A cosmologia tenta construir uma narrativa que nos conta a história do cosmo. Esta história deve começar assim que o conceito de tempo passa a fazer sentido.
Portanto, a cosmologia não quer apenas explicar por que o Universo é do jeito que é, mas por que o Universo é. Se tivermos sucesso, entraremos numa nova era da história das ideias: ao ser capaz de explicar a Criação, a razão humana seria equacionada com... sim, a mente de Deus! Vemos que não é tão surpreendente assim encontrarmos essa metáfora nos textos científicos.
Ela revela ao menos parte das ambições do empreendimento cosmológico. Revela também, como argumentei em "Criação Imperfeita", a necessidade de exorcizarmos essa metáfora da ciência. Ela não só confunde as pessoas como está errada.
A questão do excesso de matéria em relação à antimatéria é essencial. Caso as duas existissem em pé de igualdade, não estaríamos aqui: quando matéria e antimatéria colidem, desfazem-se em radiação.
Portanto, o resultado do Fermilab, que reforça resultados antigos, mostra que a versão atual da física das partículas é incompleta. Por outro lado, a descoberta não tem nada a ver com os dedões de Deus ou outra parte da anatomia divina.
Ela é um triunfo da inventividade humana, irrelevante para a teologia. A ciência certamente abre muitas janelas para a realidade. Mas nenhuma delas nos permite vislumbrar o que ocorre além da realidade.
Fonte: Micro/Macro - Marcelo Gleiser
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