Como refutar uma Teoria Científica

Tem se tornado comum no espaço virtual da internet a ocorrência de uma enorme quantidade de leigos que se acham capazes de refutar teorias científicas renomadas e amplamente aceitas pela comunidade científica. Não sei o que os leva a pensar que é tão simples jogar por terra teorias que levaram anos para ser formuladas a ainda resistem a grandes provações. Talvez seja somente a ignorância sobre o método empregado pela ciência, talvez uma crença até absurda de que os cientistas são, paradoxalmente, pessoas ingênuas apesar de dedicarem-se a anos de estudos aprofundados, de serem capazes de mudar drasticamente a realidade em que vivemos com tecnologia que mais se assemelha à magia, de terem uma enorme inteligência e capacidade de persuasão e de serem as pessoas mais indicadas para resolver a maior parte dos nossos problemas. Mas penso que não é por nenhuma dessas duas hipóteses, mas é tão-somente pelo desejo de ter razão. É algo pessoal mesmo, não tem nada a ver com adquirir conhecimento ou melhorar o mundo. Não! É só com a intenção de afirmar alguma crença pessoal.

Cérebro Sadio
As duas teorias mais atacadas, não por acaso, são a Teoria da Evolução e a Teoria do Big Bang. Não se vê por ai pessoas leigas em ciência tentando falsear o Teoria da Relatividade nem a Gravitação Universal de Newton*. Isso porque elas não estão interessadas em adquirir conhecimento, nem contribuir com algo novo para a ciência, mas sim em ratificar suas certezas. A Teoria da Evolução e a Teoria do Big Bang são alvos de tantas críticas porque vão de encontro às crenças religiosas da população em geral. São tidas como teorias atéias, com o intuito de provar a inexistência de Deus, o que não é verdade. Elas são teorias neutras nesse sentido. Provar a existência ou inexistência de Deus não é o objetivo delas, tanto que quem formulou a Teoria da Evolução foi Charles Darwin, um homem profundamente religioso (quando a formulou) e o Big Bang é de Georges Lamaitre, que era padre. Estas foram pessoas admiráveis porque tiveram a coragem de enfrentar suas crenças pessoais e dizer sim às evidências que encontraram. Embora Lamaitre tivesse continuado padre pelo resto da vida, não enxergando nenhuma contradição entre sua teoria e a existência de um criador, Darwin abandonou sua crença tornado-se agnóstico. Seu agnosticismo, no entanto, não foi a causa da Teoria da Evolução, mas talvez conseqüência dela.

Não há problema algum em tentar entender uma teoria e procurar falhas nelas, afinal os cientistas não são considerados infalíveis como o Papa ou o Dalai-lama e teorias científicas também não são – e não devem ser – consideradas unânimes. O problema é que geralmente fazem isso sem nenhum conhecimento prévio sobre o assunto, afirmando coisas absurdas, levantando falsos dilemas e mostrando aporias inexistentes, apontando contradições falsas e sustentando opiniões falaciosas. Essas são as mesmas pessoas que proferem absurdos como que o homem surgiu do macaco ou que é impossível que tudo que existe tenha surgido de uma explosão – os cientistas preferem dizer que foi uma expansão em vez de explosão. Elas confundem evolução com Big Bang e com geração espontânea. Acham que não se pode provar a evolução das espécies porque nunca foi visto uma espécie evoluir para outra ou que era necessário um observador no instante do Big Bang para validar a teoria, mas não é assim que a ciência funciona. Ninguém jamais viu um átomo, no entanto os que se contrapõem ao Big Bang e à evolução não duvidam da existência destas entidades invisíveis. Isso porque a existência dos átomos não contraria nenhum preceito religioso. Assim sendo, tudo que se opõe à religião deve ser falso, mesmo que o que julgam ser o verdadeiro seja tão invisível e inobservável quanto a evolução de uma espécie.

Dentre as afirmações mais estapafúrdias e muito comuns de ser ver está a de que o homem evoluiu do macaco! Nenhum cientista jamais disse tamanha asneira. O que se diz é que ambos evoluíram de um ancestral comum, o que é bem diferente. Outros ainda lançam o irrisório “dilema” e perguntam sem nenhuma vergonha “se o homem evoluiu do macaco, então por que os macacos pararam de evoluir?”. Tudo bem, eu sei que o ensino brasileiro não é dos melhores, mas pelo menos isso é explicado de forma que os alunos possam entender razoavelmente sem que sejam dignos concorrer a nenhum prêmio de burrice por uma pergunta como essa. É só folhear um livro de biologia do ensino médio e ver que as espécies só evoluem se assim precisarem. Além do que a evolução é um processo muito lento, que não pode ser observado. Outros dizem que por não poder ser observada, não há provas concretas desse processo. Isso acontece por ignorarem os procedimentos científicos. De uma hipótese T, eu preciso tirar as conseqüências T¹, T², T³, etc. e essas conseqüências deveriam ser observáveis. Se ocorrerem os eventos T¹, T² e T³, então minha hipótese é verdadeira. Mas se dessas conseqüências previstas pela minha hipótese, alguma delas não ocorreu, então minha hipótese é falsa. Assim, não é preciso ver uma espécie evoluir para outra, mas somente ver conseqüências deste fato. Se a Teoria da Evolução fosse falsa, por exemplo, bastava mostrar que todas as espécies surgiram ao mesmo tempo, como diz a Bíblia. No entanto os fatos mostram uma evolução gradual. Se a Teoria da Evolução fosse falsa, bastava mostrar um fóssil humano do tempo dos dinossauros quando, segundo a Teoria da Evolução, os homens ainda não existiam, ou mostrar um fóssil de uma ave no pré-crambriano. Provar que a Evolução é falsa é mais simples do que parece, mas até agora ninguém conseguiu tal feito.

Cérebro afetado
pela religião
Outros tentam invalidar a teoria alegando que ela é apenas uma teoria, não um fato. Mas o fato é justamente o que está sendo observado e a teoria é uma hipótese que já foi devidamente testada e que descreve este fato. Também contrariam a evolução com a segunda lei da Termodinâmica, mas uma coisa nada tem a ver com a outra. É comum também confundir Teoria da Evolução com origem da vida. A Teoria da Evolução não quer saber como surgiu a vida, muito menos o universo. A ciência diz que a vida surgiu sim da não-vida, mas isso não é abiogênese ou geração espontânea. Essas correntes de pensamento afirmavam que a vida surgia de repente da matéria não-viva, ao contrário do que os cientistas de hoje defendem, que ela surgiu da não-vida, mas através de um lento processo – isso também é explicado em livros de ensino médio.  O Papa João Paulo II reconheceu a Teoria da Evolução de Darwin, afirmando que a Bíblia não deve ser lida literalmente. Pastores renomados também admitem que a teoria é valida, em vez de deturpá-la como faz a maioria. Enfim, a Teoria da Evolução não implica a inexistência de Deus, mas que talvez ele não seja como está escrito na Bíblia.

Crimes não menos graves são cometidos contra a Teoria do Big Bang. No entanto aqui alguns erros são até perdoáveis já que, devido à grande complexidade dessa teoria – aliada à omissão dos seus críticos, é claro – que gera muitos enganos e mal entendidos. Não se pode reclamar que a maioria das pessoas não compreenda essa teoria, uma vez que ela é ensinada nas escolas como alguma coisa quase mitológica, sem se aprofundar muito nos pressupostos e sem maiores explicações. Mas isso não é desculpa para argumentos e conclusões dignas de uma Carla Perez que muitas vezes são vistas pela internet. Uma das mais famosas é o “argumento” do dicionário. Afirma-se: dizer que o mundo surgiu de uma explosão é o mesmo que dizer que uma explosão em uma gráfica pode gerar um dicionário (?)! Esse mesmo modelo é usado em outras horríveis falácias modificando alguns elementos, como carro por dicionário e ferro-velho no lugar de uma gráfica. Além do erro de desconsiderar a diferença na natureza das coisas tratadas, pois uma é natural e outra cultural, portanto somente produzida pelo homem e nada mais, ignora-se as propriedades magnéticas dos átomos. Não é preciso nenhum esforço para que átomos se juntem para formar moléculas e estas moléculas se juntem para formar compostos mais complexos e daí para o mundo e a vida. Agora que força poderia dispor as folhas de modo que formassem um dicionário? Nenhuma força natural é que não seria. Também tentam invalidar a teoria com o mesmo argumento que revela total distanciamento com os procedimentos científicos usados no Evolucionismo: não é possível observar o Big Bang. Novamente, não é necessária uma observação direta de todo o processo, mas somente da hipótese inferir algumas conseqüências observáveis. Ora, uma dessas conseqüências é que as galáxias estariam se afastando uma das outras. Para falsear essa hipótese bastava a observação de uma galáxia que estivesse se aproximando da nossa ou de qualquer outra, e isso jamais foi feito.

A Teoria do Big Bang foi formulada para dar conta do fenômeno observado pelo telescópio Hubble: as galáxias estavam se afastando e o universo se expandindo. Depois de muitos cálculos chegou-se à conclusão de que todas as galáxias estavam umas sobre as outras em um único ponto extremamente quente e de densidade infinita há 15 bilhões de anos atrás. Isso foi a conclusão que se chegou a partir da observação de um fato. Não foi algo inventado simplesmente para desacreditar a Bíblia. A Teoria do Big Bang não anula a existência de um Deus, mas torna difícil a existência de em Deus que tivesse criado o mundo em seis dias. Desde então muitos estudos têm sido feitos para entender a condição do universo naquele estado, mas que houve um momento em que toda a matéria do universo esteve concentrada em um só ponto e que, em seguida houve uma súbita expansão é algo comprovado. Saber o que causou essa expansão e de onde surgiu a matéria que constitui o universo são outras questões, embora também já exista resposta para elas.

Não há nenhum problema em leigos como nós contestarmos a ciência, mas é preciso primeiro entendê-la. Ao entendê-la, passaremos a ver que as teorias consagradas são edifícios fortes, cercados por todos os lados, e que é difícil até mesmo para os grandes especialistas encontrar uma falha nelas, o que dirá nós, que temos milhões de outras coisas para fazer e não podemos nos ocupar tão intensamente com esses problemas? Ao longo desse pequeno artigo quis mostrar apenas que a maioria das objeções feitas pelos leigos é muito simples de serem resolvidas e que a intenção da maioria dessas pessoas brota da simples vontade de validar, não sei para quem, algo que eles mesmos já têm como certo. Isso os impede de adentrar e encarar honestamente os desafios da ciência e do conhecimento. Uma teoria científica, mesmo sendo fortemente edificada, como afirmei antes, dá aos seus adversários o critério para destruí-la, e é exatamente isso que a torna científica. Basta provar que o universo não está se expandindo em algum ponto do espaço que a Teoria do Big Bang estará superada. Basta provar que as espécies surgiram de uma só vez que a Teoria da Evolução estará destruída. Todas as teorias científicas possuem uma série de fatos que, confirmados, invalidará totalmente a mesma (não só os fatos aqui mencionados). No entanto, para alguns crentes, nada pode invalidar sua fé. Nenhum fato, nenhum evento, nenhuma evidência poderá fazê-los mudar de opinião. Elas não dão o critério para que nós possamos mostrá-las quando estão erradas, como faz a ciência.  Pessoas assim perderam totalmente a capacidade de pensar por si mesmas, o poder de discernimento, a racionalidade, ou seja, aquilo que as diferencia dos outros animais. Qualquer esforço em ajudá-las será em vão...

*Vale lembrar que teorias científicas hoje aceitas pelos teístas eram outrora vistas como contraditória com a Bíblia, como o heliocentrismo, que contrariava um trecho do livro de Josué que afirma que o Sol se move; ou a idéia da Terra redonda, vinda dos gregos, desconhecida pelos cristãos e judeus, que acreditavam que a Terra era chata, como está escrito no livro de Jó. Essa ultima teoria não causou grande rebuliço como a anterior, uma vez que não tirava do homem seu lugar privilegiado no universo como o heliocentrismo.

Igor Roosevelt
Publicado no Recanto das Letras em 31/01/2009
http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/1414839

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