Obama planeja privatizar exploração humana espacial

da Folha de S. Paulo

Pela primeira vez em quase cinco décadas de exploração espacial tripulada, a Nasa pode ficar sem meios próprios de mandar seres humanos para o espaço.

O orçamento que o governo Obama propõe para a agência nos próximos anos, quando os ônibus espaciais se aposentarem, prevê que foguetes comerciais, "terceirizados", levarão astronautas rumo à ISS (Estação Espacial Internacional).

A não ser que ocorra uma reviravolta, é o fim do sonho americano de voltar à Lua na década de 2020. Mas será também o começo do fim da Nasa, e da própria exploração do Sistema Solar por aventureiros humanos?

Depende, para começo de conversa, de como se define "exploração". Defensores da decisão do governo Obama afirmam que o acesso ao espaço por empresas privadas é o futuro do ramo, de qualquer modo, e apostam que o plano tirará o peso inútil das costas da Nasa.

Com isso, a agência poderia se concentrar em fazer ciência de ponta, incluindo a busca de planetas semelhantes à Terra galáxia afora, e no planejamento de missões realmente ambiciosas, como uma ida a Marte.

Já os críticos da proposta temem que a falta de "asas" próprias acabe aleijando a Nasa permanentemente, sem que a iniciativa privada alcance eficiência comparável à da agência em seu auge.

Ideias antigas

"A ideia de deixar a órbita baixa da Terra [onde está a ISS] para empresas licitadas tem sido um tema de discussão na Nasa já faz mais de uma década", diz Roger Launius, historiador da Instituição Smithsonian (EUA) cujo principal tema de pesquisa é a trajetória da agência.

"Mesmo durante a Guerra Fria havia gente que questionava a necessidade de acesso independente ao espaço para astronautas americanos. Transferir as operações em órbita baixa para a iniciativa privada permitiria que a Nasa se concentrasse em sua tarefa de exploração além dessa esfera modesta", afirma Launius.

A proposta do governo Obama é, em parte, uma reação aos rumos não muito animadores tomados pelo programa Constellation, voltado basicamente para o retorno à Lua.

O Constellation nasceu em 2005, como tentativa do então presidente George W. Bush de superar o trauma causado pela morte dos tripulantes do ônibus espacial Columbia durante a volta da nave à Terra, em 2003.

No entanto, mesmo após investimentos de US$ 9 bilhões com o projeto, as chances de chegar à Lua com ele antes de 2030 são mínimas, afirma o administrador da Nasa, o ex-astronauta Charles Bolden.

Questionado nesta semana por um subcomitê da Câmara dos Representantes dos EUA, Bolden disse que, além da demora, os astronautas que viajassem ao satélite natural da Terra não teriam meios de voltar... porque isso não estava previsto no orçamento. "Em sã consciência, eu não poderia recomendar isso ao presidente", declarou.

"Quando o governo Bush anunciou que voltaríamos à Lua e iríamos a Marte, ele se comprometeu com duas missões caríssimas, mas não alocou fundos para elas", resume a astrônoma brasileira Duilia de Mello, do Centro de Voo Espacial Espacial Goddard, da Nasa.

"A agência chegou a cancelar certos projetos para investir nas futuras missões. Agora que trocamos de governo e vivemos uma grande crise econômica, temos novamente de reavaliar as prioridades", afirma.

Muitos se opõem a um retorno à Lua, diz Mello, por duas razões: o custo elevado e o fato de seis missões tripuladas já terem posto os pés lá.

"Acrescentaria pouco para o conhecimento do Sistema Solar", explica. "Já os que são a favor dizem que precisamos mostrar capacidade de sair da Terra em missões tripuladas antes de embarcarmos em projetos mais complexos, como uma ida a Marte".

"Eu, particularmente, sou favorável à solução de contratar uma firma para a construção dos veículos espaciais, desde que seja feita dentro dos padrões Nasa de segurança", afirma Mello, ressaltando que não fala em nome da agência.

Bolden, que tem essa prerrogativa, já afirmou publicamente que "o orçamento do presidente Obama é o meu orçamento" e disse que "não há um plano B" para foguetes feitos pela Nasa que pudessem substituir os ônibus espaciais.

Não é bem o que acham vários dos astronautas do programa Apollo. Jim Lovell, comandante da malfadada Apollo-13, declarou à rede britânica BBC que a decisão de terceirizar as viagens espaciais teria "consequências catastróficas" para a Nasa.

Eugene Cernan, último homem a pisar a Lua, a bordo da Apollo-17, em 1972, afirmou estar "desapontado".

A oposição um tanto saudosista dos dois, no entanto, é café pequeno diante da pressão iniciada pelos congressistas americanos, começando por Estados onde a Nasa tem presença importante (Flórida, Alabama e Texas), mas não restrita a eles.

Há tanto democratas quanto republicanos que questionam a capacidade da indústria de entregar o que o governo Obama deseja. Por isso mesmo, a aprovação do fim do orçamento para o Constellation ainda não pode ser vista como favas contadas.

Decadência?

Para alguns especialistas, cortar os voos tripulados é apenas uma necessidade lógica diante da decadência da criatividade e da capacidade de inovação nesse ramo dentro da Nasa.

"Durante o programa Apollo, a Nasa realmente tinha "the best and brightest" [os melhores e mais brilhantes], foi uma conquista fantástica", diz Gilberto Câmara, diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

"Isso acabou", afirma Câmara, para quem uma cultura burocrática e pouco inovadora se instalou na agência. Para ele, as décadas recentes de exploração tripulada não trouxeram nenhuma aplicação com potencial econômico significativo, ao contrário do que se deu na era Apollo.

Launius discorda, afirmando que não há evidências de que o número de patentes registradas ou artigos científicos publicados por cientistas da Nasa tenha decaído depois da era de ouro da agência. Mello lembra que, em ciência básica, a agência ainda tem grandes projetos para o futuro próximo.

"Há o Telescópio Espacial James Webb, por exemplo, que deverá ser lançado em 2014. Com ele vamos poder ver os confins do Universo, as primeiras estrelas e as primeiras galáxias.

E vamos continuar procurando por planetas semelhantes ao nosso." Resta saber se isso será o suficiente para manter o sonho espacial aceso.

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